Os meus seis anos revelaram-me um grato descobrimento. O ano, 1994, era de copa do mundo. Outra copa, contudo, despertou-me para o mundo do futebol e para essa paixão – que é quase um vício – pelo Grêmio Football Porto Alegrense. Refiro-me a Copa do Brasil de 1994. Comemorei o título discreto, mas o meu sangue se transmutou do vermelho corriqueiro para o misto tricolor de azul, preto e branco. A partir desse ano, com um importante reforço, confesso, do tetracampeonato do Brasil, meu envolvimento com o futebol tomou proporções gigantescas.
No ano seguinte, lembro-me muito bem do meu nervosismo mesmo nos jogos da Copa do Brasil, ausente muitas vezes o televisionamento, em que eu perdia horas e horas só gozando da tensão de ouvir tudo pelo rádio, todos os jogos. Posso lembrar com precisão cinematográfica do bombril na ponta da antena para melhorar as imagens nas noites de Libertadores e, mais que isso, é-me cristalina a lembrança do abraço emocionado dos irmãos gremistas na ilha dos colorados que era a minha casa no gol contra o Emelec, que tinha fardamento alaranjado. Não me bastava ouvir e ver as partidas, eu queria saber tudo o que envolvia o Grêmio, quase como faço hoje com a ajuda da internet. Só que naquela época, em que não tínhamos PPV, muito menos acesso à rede mundial de computadores, eu me dirigia com meus arrancados do pai R$ 1,00 até a banca de jornais mais próximas para comprar a minha ZH, todos os dias, só para ler a página de esportes. E assim se foi por muitos anos, dá pra se dizer que assim procedi até a minha vinda para Porto Alegre, em 2002, deixando a ressalva de que, com a melhora das condições econômicas da minha família, foi-me possível, com o passar dos anos, uma maior facilidade na tarefa apaixonante de seguir o meu Grêmio. Passamos a ter SKY, a comprar produtos e até pude vir à PoA, mesmo antes de morar aqui, para assistir a alguns jogos.
Não pretendo esgotar aqui todas as histórias que envolvem a minha relação próxima com o futebol, muito menos a minha relação íntima com o Grêmio. O objetivo que me faz ressuscitar outrascoisasdefato não é o memorialismo, tampouco a sentimentalismo puro. A intenção que me motiva as palavras é justamente a percepção, seja na realidade por vezes repugnante, seja nos inflamados discursos que posso ouvir por aí, de um pretenso profissionalismo que estaria a dominar o esporte.
O campo da teoria não admite negação dos fatos, essa é uma premissa básica de qualquer desenvolvimento racional, ao menos para mim. É fato que o dinheiro está irremediavelmente inserido no contexto do futebol. A televisão investe muito, as empresas buscam publicidade, os clubes obtém elevados rendimentos e os profissionais envolvidos nos variados segmentos que, direta ou indiretamente, relacionam-se com o meio acabam por obter riqueza – uma minoria – ou o sustento – a maioria. Nesse viés, é fenômeno quase inevitável, seja pela própria evolução das relações sociais e do homem, seja pelo desenvolvimento e pela necessidade de estruturação administrativa de todo o contexto que circunscreve o futebol, que a denominada profissionalização se constitua. Os jogadores são profissionais, porquanto tirem daí o seu sustento, os técnicos são profissionais, os preparadores são profissionais, médicos, roupeiros, inclusive dirigentes, modernamente, já são remunerados e tiram o seu ganho econômico do desempenho de atividades ligadas ao futebol. Esse caráter é intrínseco e inegável.
A minha revolta, contudo, não é com esse fato irretocável, e sim com o exagero da sua preponderância a indicar uma frieza de relações que contraria a própria essência do futebol, sabidamente popular, bem como a força motriz de todo esse aparato supostamente profissionalizado: o futebol, como vemos hoje, por mais profissional que seja, por mais estruturado que possa aparecer, por mais rico e rentável que se mostre, vive única e exclusivamente em virtude da paixão. Da paixão dos torcedores dos inúmeros clubes distribuídos pelas cidades e pelos países nesse mundo afora que, como eu fiz na infância e faço hoje, consomem o produto e pagam a conta, ainda que de forma indireta, de tudo isso. Não fosse o torcedor a comprar a camiseta, não fosse o apaixonado por futebol assistir ao jogo no domingo e dar audiência para a televisão, não haveria sequer uma profissional engordando os bolsos com esse esporte.
Trouxas somos nós, os que pagamos, então? Pode ser. Provavelmente a razão acompanhe a quem, pelo canto da boca, deixa escapar um riso quando pensa a esse respeito. Contudo espero que não esqueçam do que lhes dá sustento e que tenham a decência de ao menos esconder sob o tapete as sujeiras que, a olho nú, podem matar a paixão que é a base para todo o circo. Os palhaços haverão sempre de serem palhaços a não ser que lhe matem o que lhes venda os olhos: a louca paixão! Ao menos sejam inteligentes, ó espertos, pois fingir a idiotice diante dos falsos malandros é um prazer inestimável…
E mais, muito mais: não subestimem o poder e a importância que tem o futebol na vida de milhões e milhões de pessoas. É um esporte, é bem verdade. É só um esporte? Não sei. Dizem que o objetivo da vida é ser feliz. O que é felicidade senão o prazer encontrado na satisfação? Não vou me alongar nas análises filosóficas, não é o meu propósito, embora os meus questionamentos a respeito sejam vários, contudo apenas pontuo e semeio a dúvida: se o futebol é capaz de mover milhões, de envolver multidões e de tão facilmente agir sobre sentimentos, fazendo urgir alegria ou tristeza, qual é a sua real importância? Há quem diga que, no Brasil, em ano de copa do mundo, esquecem-se os problemas. Riem e zombam disso. Chamam os brasileiros de alienados quando, no macro, esse evento esportivo só aumenta a proporção do que acontece quase que no cotidiano todo o domingo de mengão no maracanã ou de Imortal Tricolor no Olímpico. Será que o futebol é mesmo tão insignificante e o povo tão alienado ou a importância, despida a arrogância dos pseudo-intelectuais-politizados-que-são-os-donos-da-verdade, é maior do que se imagina?
O que faz feliz é sempre importante. E a paixão é o combustível.
Pensem.
.